IGNORÂNCIA E PRECONCEITOInicio este texto colocando uma questão muito simples: como é possível alguém como Alberto Gonçalves, transbordante de preconceitos socioculturais e autor de ideias bacocas chegou a sociólogo, denegrindo vilmente a profissão e quem a exerce? Não entendo. E formulo uma segunda questão, muitíssimo bem colocada por Rui Miguel Abreu, cronista da Blitz: "quem no seu perfeito juízo daria emprego a Alberto Gonçalves?" [neste caso, quem no seu perfeito juízo lhe atribuiria uma coluna de opinião num jornal de âmbito nacional?]. Para contextualizar, Alberto Gonçalves é o autor dos infames textos "O hip hop também mata" e "'Hip hop', rimas finais", publicados no Diário de Notícias a 21 e 28 de Março, respectivamente, sobre a morte do rapper MC Snake.
Na resposta ao artigo de Abreu ao texto "O hip hop também mata" Gonçalves virou as baterias para o Metal, afirmando desbragada e ignorantemente: "o heavy metal, para usar um exemplo normalmente associado a jovens brancos (...) é de um primarismo similar [ao do Hip Hop], incluindo na celebração da violência (e na misoginia, etc.). Sucede que, ao contrário do hip hop, nem a "criatividade" do heavy metal beneficia de adulação externa ao culto (não conheço académicos empenhados em dissecar o lirimos da banda Nuclear Assault), nem o seu peso (sem trocadilho) ultrapassa círculos restritos.
Antes de mais, caro Alberto Gonçalves, são intrínsecas ao Metal uma estética e imagética tendencialmente mais obscuras e agressivas (nalguns sub-géneros mais do que noutros, como no Death ou no Black Metal) do que noutros estilos musicais, mas surpreende-me o facto de o seu ilustre e mal (in)formado cérebro não detectar uma fortíssima componente de crítica e análise social na música pesada. Para seu conhecimento - porque, notoriamente, precisa de ser esclarecido sobre o tema com a maior urgência possível - o nome Nuclear Assault carrega em si uma violenta crítica face ao perigo de uma eventual guerra nuclear entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética. Isto porque a banda (uma das minhas favoritas, por acaso) surgiu em 1984, a sete anos de a Guerra Fria (já ouviu falar?) terminar, após o colapso da União Soviética, ditado pela queda do Muro de Berlim, em 1989.
Por outro lado, a criatividade no Metal existe, e grande abundância, como poderá facilmente verificar se quiser dar-se ao trabalho de analisar cuidadosamente a estética, a imagética, o lirismo, a composição e a execução técnica de uma simples meia-dúzia de álbuns do género, independentemente da sua variante. Nessa medida, poderá facilmente comprovar não só a criatividade, mas também a cultura inerente a numerosos músicos do género, que muito frequentemente recorrem a disciplinas como a História, a Sociologia, a Literatura, a Arte em geral ou a Ciência para elaborarem intrincados conceitos originários de temas ou álbuns magníficos, provando a complexidade do Metal.
Com efeito, segundo o investigador Nelson Nunes, “o heavy metal não é ‘primário’, pelo simples facto de ser, provavelmente, dos estilos musicais mais complexos. Não acredita? Então veja a inspiração do heavy-metal: música africana tribal (o que mostra o seu enorme valor cultural), música clássica (extremamente apreciada pelas elites, desde o século XVII até hoje, o que revela também a sua complexidade de construção), punk rock (marcado pelas revoluções sociais e ideológicas dos anos 70/80) e ainda pelo blues (que demonstra, mais uma vez, o elevado índice cultural deste género). Por outro lado, o heavy metal não é, de todo, primário, uma vez que não apela, única e exclusivamente, à emotividade; as letras, aliás, são de uma extrema relevância social. Para tal, leiam-se os temas abordados por artistas como Iron Maiden (que apresentam temas históricos aos seus fãs; não será isto uma forma de ensino, apelando à emoção e à lógica?), Metallica, Killswitch Engage, System of a Down, entre muitos outros. O que acontece é que pelo ‘peso’ da música em si, os músicos do género não são, simplesmente, ouvidos pelos media. "
Quanto aos académicos interessados em estudar o Metal não faltam, mas claramente o senhor optou por fazer uma tristíssima figura ao afirmá-lo antes de fazer uma breve pesquisa na Internet sobre o tema, o que diz muito sobre a sua forma de trabalhar. Em particular na última década verificou-se um considerável aumento de importantes estudos sociológicos, antropológicos, psicológicos e históricos sobre o Metal enquanto aglutinador de paixões, gerador de comunidades altamente ritualizadas, com simbologia, ética, representações sociais e comportamentos próprios. Algumas dessas pesquisas resultaram em dezenas livros como Heavy Metal: The Music and its Culture; Running with the Devil: Power, Gender, and Madness in Heavy Metal Music; Lords of Chaos: The Bloody Rise of the Satanic Metal Underground; Rock, and Jazz: Perception and the Phenomenology of Musical Experience; Heavy Metal: A Cultural Sociology; Heavy Metal in Baghdad: The Story of Acrassicauda; This Ain't the Summer of Love: Conflict and Crossover in Heavy Metal and Punk; Metal: the Definitive Guide; Sound of the Beast: The Complete Headbanging History of Heavy Metal; Swedish Death Metal; Extreme Metal: Music and Culture on the Edge ou Heavy Metal Islam: Rock, Resistance and the Struggle for the Soul of Islam. Estes são apenas alguns títulos.
Aliás, a relevância do Metal enquanto objecto de estudo científico ficou bem patente na atribuição pelo Governo neozelandês, em 2007, de uma bolsa de estudo no valor de 96 mil dólares locais (cerca de 50 mil euros), válida até ao corrente ano, ao investigador e headbanger David Snell para conclusão da sua tese de doutoramento, intitulada The Everyday Life of Bogans: Identity and Community Among Heavy Metal Fans . A notícia correu Mundo.
Por outro lado, os documentários Metal: A Headbanger's Journey e Global Metal, realizados pelo antropólogo canadiano Sam Dunn com Scott McFadyen, revelaram-se determinantes para um maior desenvolvimento cultural do género. Embora não baseados em pressupostos científicos, estes documentos vídeo trouxeram ao Metal uma nova credibilidade, suscitando o interesse dos fãs e da sociedade em geral numa perspectiva sociocultural e histórica.
Por outro lado, abundam no mercado as enciclopédias, constituindo as maiores referências The Book of Metal: The Most Comprehensive Encyclopedia of Metal Music Ever Created, Encyclopedia of Heavy Metal Music, The International Encyclopedia of Hard Rock & Heavy Metal, os cinco volumes da colecção Rock Detector (cada um incidindo num subgénero específico), The Virgin Encyclopedia of Heavy Rock, The International Encyclopedia of Hard Rock & Heavy Metal, The New Wave of British Heavy Metal Encyclopedia ou os dois volumes de Extreme Metal. Na Internet, as enciclopédias Metal Archives (www.metal-archives.com/), The BNR Metal Pages (www.bnrmetal.com/), GoC: Folk Metal Encyclopedia (www.truemetal.org/metalmagick/ ), Metallian (www.metallian.com/) ou o próprio Rock Detector (www.musicmight.com/) constituem referências obrigatórias. E estes são apenas alguns exemplos.
Face a tudo isto sr. Alberto Gonçalves ainda acha que o Metal é um género musical menor, sem interesse académico e científico? Entende que o Metal nada tem para oferecer que não mereça ser estudado? Só espero que o título da crónica que assina no DN - "Dias Contados" - seja profética e que muito em breve lhe seja retirada essa tribuna, porque notoriamente não a merece.
Dico













Numa entrevista recente à revista Crawdaddy, o ex-guitarrista dos extintos White Zombie, Jay Yuenger, explicou, entre várias outras coisas, que não deu nenhum contributo à compilação antológica “Let Sleeping Corpses Lie” lançada em 2008. “Foi-me enviada uma maqueta apenas dois dias antes do seu lançamento. Foi um registo muito mal idealizado. Nenhuma das fotos estavam creditadas (…). Não trouxe encarte, o que seria essencial num lançamento deste tipo. A banda tem uma história muito interessante, como puderam não editar um encarte? Os fãs queixam-se disso constantemente. Eles estão contentes porque esta caixa contém discos antigos muito raros (…), mas o seu invólucro é uma seca. O Sean [baixista] tinha tanto género de coisas fixes, como fotos e flyers que poderiam ter sido incluídas”. Quando inquirido sobre as declarações de Rob Zombie que diziam que deixou de haver convivência e comunicação na banda depois do lançamento do último disco, Yuenger responde que “é inevitável que as coisas piorem depois de tantos anos a viver sob o mesmo tecto”. No entanto, o mesmo confessa que “gostava de ter gravado outro álbum, mas isto não estava nos planos”. Justifica: “Olhamos para os discos a solo do Rob e podemos perceber o que ele queria fazer. Eu sempre quis estar numa banda de rock onde os instrumentos base fossem guitarra, baixo e bateria. Nos vivíamos em Nova Iorque onde tinha grande expressão o rap e o techno. As minhas bandas favoritas na altura eram Slayer e Public Enemy. Eu gostava muito de samples e por isso editámos “La Sexorcisto” (…) e as pessoas adoraram. Fomos a primeira banda a rock a fazer essa mistura. Contudo, à medida que o tempo foi passado, a cena techno começou a dominar e eu odeio isso. Hoje em dia podem ouvir a falta de “humanidade” nos trabalhos do Rob”, confessou. Já os piores momentos da carreira dos White Zombie foram, para Yeung, “quando o primeiro baterista da banda, Ivan de Prume, abandonou a banda no meio de uma intensa digressão (...), ele era muito compulsivo e tinha problemas com substâncias. Nós tínhamos um grande espectáculo em Los Angeles e ele decidiu desaparecer para ir para a farra. Estava todo lixado e apareceu apenas cinco minutos antes do concerto. Nesse dia tocámos já sabendo que o íamos despedir logo a seguir ao concerto. Entretanto, tivemos ainda que andar a sorrir para todas as companhias de discos que estavam no backstage para nos fotografar”. Pode ler a entrevista toda 




























