Monday, December 21, 2009

Entrevista Revocation

QUANDO A ALMA NÃO É PEQUENA…
"Quanto mais exposição alguém tem mais pessoas te vão odiar"

São precisas apenas três mentes bem inspiradas para criar uma das recentes sensações do death/thrash metal técnico e progressivo. De Boston, os Revocation exaltam uma criatividade e destreza assinaláveis e para a sua ainda curta existência não podia deixar de ser assinalável a sua intensa actividade tanto ao vivo como em disco. Ao fim de quatro anos lançam o seu segundo disco de originais sem precisarem de continuar numa luta solitária e mais dura pela firmação de um nome. É por um excelente “Existence Is Futile” e pela capacidade promocional da Relapse Records que este trio efervescente tem os alicerces para se pôr na órbita dos amantes de música técnica, desafiante... mas profunda. Numa breve pausa de Natal, tivemos a oportunidade de contactar o vocalista e guitarrista do grupo, David Davidson.

Têm estado a tocar intensivamente desde que o vosso novo trabalho foi editado. Trata-se de uma situação nova ou já se passava antes de entrarem para os quadros da Relapse?
No passado fizemos algumas digressões por conta própria que cobriram grande parte dos Estados Unidos. No entanto, a nossa próxima digressão, em Janeiro, será a mais extensa que alguma vez fizemos. Estamos muito entusiasmados por irmos tocar em sítios onde nunca tocámos. Depois desta digressão pelos Estados Unidos estaremos disponíveis para “conquistar” o resto do mundo.

Estão já um pouco cansados de estarem tanto tempo num autocarro?

[risos] Gostava muito que fosse um autocarro. Na verdade, fazemos as nossas digressões na nossa carrinha que até é fixe mas pode tornar-se desgastante quando temos que passar oito ou dez horas seguidas em viagem. O nosso programa é conduzir o dia inteiro, actuar, carregar o material e à noite conduzir para ver se encurtamos metade do caminho em direcção ao próximo concerto. Com isso ficamos muitas vezes com as cabeças em brasa!

Entretanto, como fazem para relaxar ou queimar tempo? Compõem, dormem ou apenas fazem disparates?
Realmente pode haver muito tempo morto durante as viagens mas, normalmente, ocupamo-nos a ver um filme ou a ir a um espaço agradável. Também é frequente irmos a clubes de strip. O tempo voa quando temos mamas e cerveja à nossa volta! [risos]

Em termos de composição, os Revocation têm um elemento principal encarregue disso ou trabalham em democracia?
Eu escrevo todos os riffs e faço a maior parte dos arranjos mas para ficarmos totalmente satisfeitos temos que fazer umas jams e só depois damos as músicas por completas. O mesmo acontece com as letras. No último álbum elas foram escritas por mim e pelo Anthony mas ele acabou por escrever a maior parte delas.

Acha que três pessoas a trabalhar numa banda é melhor do que quatro ou cinco? Será este um factor de aproximação e estabilidade no seio dos Revocation?
Sim, isto pode ser um dos factores a nosso favor. Eu acho que connosco as coisas já têm a tendência de sair muito naturalmente, pois tocamos juntos há bastante tempo. Acontece normalmente eu sugerir um riff e as batidas que o Phil toca são exactamente o que imaginava. Portanto, nós todos acabamos por ter uma forma de pensar muito semelhante no que diz respeito à composição.

“Existence Is Futile” acaba por ser um disco mais diversificado e até ligeiramente menos agressivo do que o seu antecessor. A ideia era construir um disco mais eclético?
Sabíamos que este disco seria mais diversificado do que o “Empire Of The Obscene”. Todos os novos temas têm um sentimento épico que realmente faltava ao trabalho anterior, para além de que os elementos progressivos foram muito mais explorados. Quanto à agressividade, acho que continua lá mas agora tem outro espaço para respirar e gerar contraste com os outros aspectos do nosso som.

Acha que o death metal extremo e técnico está a ganhar novo fôlego com a emergência de bandas como, por exemplo, os Obscura ou até mesmo as de deathcore que acabam por tornar o som mais extremo em algo trendy?
Sim, estão sempre a surgir bandas que dão uma nova aragem ao género. Por exemplo, é recorrente eu ficar aborrecido com muitas das bandas de death metal técnico de topo que existem, porque a composição é muitas vezes comprometida pela vontade premente de se superarem tecnicamente. Já no caso dos Obscura, eu penso que conseguem equilibrar perfeitamente técnica e composição.

Estou quase certo de que é grande fã de Necrophagist e Death. Terá sido com essas bandas se sentiu impelido a tocar guitarra da forma virtuosa como o faz?
Quando ouvi Necrophagist pela primeira vez fiquei absolutamente estupefacto! Foi muito inspirador. Quanto aos Death, são uma das minhas bandas preferidas de todos os tempos. O Chuck era um excelente compositor e uma máquina a escrever riffs. Até num certo dia de Halloween demos um espectáculo só de covers dos Death. Executámos um tema de cada um dos seus álbuns e foi fantástico prestar essa homenagem a uma banda tão boa. O público adorou!

Muitas vezes se alega que o excesso de técnica revela uma atitude fria e pouco emotiva na forma de compor. O que lhe reserva dizer sobre isso?
É uma análise absurda. Contudo, a técnica não me impressiona se for a única qualidade de um músico. O virtuosismo pode fazer de alguém um grande executante mas não, necessariamente, um grande compositor.

Sendo os Revocation uma banda jovem podem sentir-se muito curiosos sobre o que os fãs acham, o que é normal. Contudo, o que lhe leva a pensar as pessoas que não digerem bem o vosso som pelo facto de ser tão variado e não se parecer objectivamente com isto ou aquilo?
Eu penso que ter um som variado é uma característica positiva. Acho que a nossa música é capaz de manter as pessoas atentas, pois todos os nossos temas têm uma personalidade muito própria e subsistem cada um por si. Porém, quanto mais exposição alguém tem mais pessoas te vão odiar e se as pessoas pretendem pôr-nos de lado porque somos muito diversificados então é porque é assim que as coisas devem acontecer.

Agora que são apoiados por um grande selo podemos dizer que estão extra-motivados?
Nós sempre nos sentimos muito impulsionados, mas é verdade que o apoio adicional da editora foi uma grande inspiração para nós. Já não acontece sermos só nós a trabalhar para criarmos nome mas sim uma rede de pessoas nas nossas costas que gera em nós uma sensação muito boa.

Acha que a música no vosso próximo trabalho será influenciada por o que se está passando agora à vossa volta?
Nós já escrevemos muita música para o nosso futuro trabalho, portanto ainda não sei que influências exteriores poderão afectá-la. Nós escrevemos música que, primeiro, gostamos de ouvir. Portanto, tentamos manter-nos verdadeiros para connosco antes de que com qualquer outra pessoa.

Nuno Costa

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